Enviado pela Comissão Pastoral da Terra-Paraná (CPT-PR)
RURALISTAS AGRIDEM SEM TERRA EM MARCHA PELA EDUCAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA NO PARANÁ
A fala do presidente da Sociedade Rural do Oeste do Paraná, Alessandro Meneghel, publicada no jornal folha de Londrina de hoje, 01.12.06, revela o espírito e a postura dos cerca de 150 fazendeiros que na tarde de ontem, 30/11 bloqueavam a BR 277, na altura do município de Cascavel. Diz o líder dos ruralistas “Se o governo não cumprir as reintegrações, nós vamos fazer com as nossas próprias mãos”. Em outro trecho da reportagem o mesmo afirma, “Cumprimos a lei, geramos riqueza, colocamos alimentos na mesa da população. Os sem terra são uns vagabundos.”
Conforme noticiou a imprensa local, os fazendeiros aguardavam desde horário do almoço, os Sem Terra que no período da tarde se deslocariam em Marcha até a fazenda experimental da multinacional Sygenta Seeds, desapropriada pelo governo estadual, em Santa Tereza do Oeste. O ato fazia parte do encerramento da I Jornada de Educação da Reforma Agrária. Durante toda a semana cerca de 2.000 educadores/as e educandos/as estiveram em Cascavel debatendo as inúmeras experiências na área da educação desenvolvidas nos assentamentos e acampamentos.
Por volta das 15:00 horas, os trabalhadores/as que estavam nos ônibus se defrontaram com o bloqueio dos fazendeiros (que seguravam o tráfego apenas no sentido da fazenda desapropriada pelo governo do Estado). Com uma carreta, vários tratores e alguns outros automóveis insistiam em coibir e impedir a passagem dos Sem Terra. Estranhamente toda a movimentação dos ruralistas era acompanhada pela Polícia Rodoviária Federal que em momento algum realizou nenhuma iniciativa no intuito de desobstruir a rodovia e garantir a passagem dos ônibus.
A inoperância dos órgãos públicos que passivamente “assistiam” a ação truculenta dos fazendeiros locais é uma grave afronta ao direito constitucional de organização dos trabalhadores/as que apenas se deslocavam em uma rodovia pública, em ônibus em perfeito estado de conservação. Um outro fato que nos chama a atenção (mas que não nos causa surpresa) é a postura autoritária dos ruralistas, que contrariando toda a legislação vigente, que assegura a todos/as o direito à organização e manifestação, interditaram a rodovia e insistiram em coibir a passagem dos manifestantes.
Desta forma estavam dados todos os elementos para o conflito ocorrido na tarde de ontem na região oeste do Paraná. Impedidos de seguir de ônibus, os trabalhadores/as desembarcaram e decidiram continuar a marcha a pé no outro lado da rodovia. Após passarem pelo bloqueio foram surpreendidos pelos fazendeiros que a cavalo, portando paus e barras de ferro avançaram sobre os manifestantes. Cerca de oito trabalhadores/as ficaram feridos no confronto.
Vale a pena lembrar que esta não é primeira vez que os fazendeiros se reúnem para inibir e intimidar os Sem Terra e suas organizações. Na semana passada, ruralistas gaúchos, montaram acampamento na BR- 290, para impedir a marcha que se deslocava até o município de São Gabriel.
O conflito ocorrido em Cascavel explicita mais uma vez a forma truculenta e autoritária que os grandes proprietários de terra agem no Paraná e no Brasil. Para estes a defesa da propriedade privada alicerça a intimidação, a violência, a perseguição e os crimes contra os trabalhadores/as e seus direitos.
Diante dos fatos nos cabe perguntar o que produzem os latifúndios? Será que os 1.425 assassinatos de trabalhadores/as, lideranças sindicais, agentes de pastoral no Brasil catalogados pela CPT entre 1985 e 2005 é parte da riqueza produzida pelas grandes propriedades? Será que os 45 assassinados no Paraná no mesmo período é parte da riqueza produzida pelas grandes propriedades em nosso Estado? Será que os 18.694 trabalhadores/as resgatados pelo Ministério do Trabalho nas fazendas do Brasil em situação de escravidão entre 1995 e 2005 é parte da riqueza produzida pelas grandes propriedades? Será que a devastação do Cerrado e da floresta Amazônica (cerca de 17% desde 1970) para o plantio de soja e criação de gado é parte da riqueza produzida pelas grandes propriedades? Considerando que a pequena propriedade absorve mais de 86,6% da mão-de-obra ocupada no campo, enquanto a grande apenas 2,5%. Considerando que as pequenas propriedades produzem grande parte da produção agrícola brasileira (sendo 70% do café; 55% do milho; 72% do leite; 78% do feijão) nos cabe perguntar quem produz as riquezas?[1]
Para a CPT a ação raivosa dos representantes do agronegócio é mais uma afronta à luta e os direitos dos trabalhadores/as do campo. Esta atitude também pode ser vista como receio e medo dos que há séculos dominam e oprimem o povo e que tremem de medo quando este organizado em marcha, estuda, luta e descobre as “verdades” que formam a nossa sociedade. Neste sentido cabe a pergunta, “o que produzem os latifundiários e suas organizações”?
Curitiba 01 de dezembro de 2006
Comissão Pastoral da Terra do Paraná